abril 25, 2004

O meu primeiro dia de liberdade

Por poucos minutos não assisti, ao vivo, na madrugada libertadora do 25 de Abril, à tomada do Rádio Clube Português. Passei pela rua pouco antes da chegada dos militares, longe de imaginar o que estava prestes a acontecer. Nessa época, entre ensaios e espectáculos no Grupo de Teatro de Campolide, nunca ia cedo para casa.
Já em casa, acordei horas depois com a minha mãe ao telefonei. Já sei da “caldeirada”, ouvi na rádio, dizia ela ao meu pai que, mal chegara ao trabalho, inquieto com os acontecimentos, logo telefonou para casa a contar o que se passava.
Devo ter pensado cá para mim: Ups, temos caldeirada para o almoço?... Nesses anos de juventude eu não morria de amores por peixe, os meus amores eram outros....
Já desperto, a minha mãe informa-me que um movimento de militares eclodira para derrubar o governo. Confesso que não fiquei muito surpreendido. Pelos círculos do teatro independente por onde andava, em especial depois do fracassado “Golpe das Caldas” um mês antes (16 de Março), sucediam-se conversas e zunzuns sobre movimentações.
As palavras da minha mãe espantaram-me o sono das poucas horas dormidas. Recordo-me que tive a intuição que aquele movimento era o início de algo maior. A dúvida que me assaltou foi só uma: se o golpe vinha do sector democrático ou dos ultra conservadores de direita que criticavam a abertura marcelista.
Contra todos os avisos maternos de preocupação, saltei para a rua e fui ver a marcha dos acontecimentos, viver a Revolução.
Foi um dia de emoção total, de loucura completa. Observar as movimentações militares, sentir-me irmanado com um mar de gente que enchia as ruas e largos de Lisboa onde se desenrolavam as principais operações, falar com este e com aquele, partilhar informações sobre o que estava a acontecer... Recordo-me que as pessoas falavam todas umas com as outras mesmo sem se conhecerem. Nunca vou esquecer a alegria esfuziante das populações que adivinhavam naqueles acontecimentos a vitória da Liberdade com que muitos sonhavam, em segredo, há longas décadas.
Alegria e Liberdade são as duas palavras que, para mim, melhor definem o sentimento e espírito daquele dia 25 de Abril, há trinta anos.
Não sei a que horas regressei a casa. Tardias, tenho a certeza.
Mas que interessa as horas?
Era o meu primeiro dia de liberdade....

Publicado por vmar em abril 25, 2004 12:14 AM
Comentários

Muito interessante o teu testemunho, essa parte da alegria eu já desconfiava que tivesse sido muitisimo importante, contas agora na primeira pessoa que sim. Viva a lIBERDADE e a ALEGRIA.

Afixado por: Pedro Lima em abril 25, 2004 10:16 AM

Foi o primeiro dia de liberdade de todos quantos sentiam que ela era coarctada pelo regime derrubado.

Afixado por: congeminações em abril 25, 2004 11:10 AM

Foram horas de angústia e medo, de sonhos de liberdade contidos, que acabariam por “estoirar”, numa comoção vibrante de alegria, onde os dias se começaram a desenhar em LIBERDADE.

Afixado por: jgonçalves em abril 25, 2004 10:43 PM

A liberdade de movimento e expressão são imprescindíveis, mas quer em Portugal, quer infelizmente por todo o mundo, a liberdade facilita a vida ao poder económico, que a usa como um meio de manipulação de informação, com o contributo inestimável dos media, que são responsáveis pela difusão de mensagens deturpadoras da realidade.
Se o cidadão é alimentado à base de informação manipulada, a sua liberdade rapidamente definha. Não podemos falar de liberdade, se o indivíduo não possui meios para interpretar cabalmente a realidade que o rodeia.
Escutar atentamente as boas intenções dos "democratas", quando os mesmos discursam ao país, em muitos casos, nem milho para dar aos pombos chega a ser.
E como a comunidade internacional não dá sinais inequívocos de resistência ao movimento global de imbecilização, as populações dos países ocidentais, que viviam bem e sem preocupações de maior, e suponham os direitos civícos e sociais garantidos, tardam em se organizar para responder às demandas da nova ordem mundial.
Só o desenvolvimento do senso crítico poderia travar este processo, mas a situação actual leva-me a crer que vai ser muito difícil inverter o curso dos acontecimentos, facto que não deve desmotivar quem acredita que a liberdade não só é possível, como é essencial à realização pessoal, e fundamental para a preservação do futuro da humanidade.

Afixado por: Rodrigo Ribeiro em abril 25, 2004 11:38 PM

Gostei do teu testemunho.. 25 de Abril ficou para sempre na alma de quem o Viveu.

Tal como para ti, foi o meu primeiro dia de Liberdade...

Afixado por: M. em abril 26, 2004 12:28 AM